Sempre tive a impressão de que o que torna as estrelas exatamente interessantes são as enormes distâncias que nos separam delas. O que dista muito pode ser melhor idealizado! Por vezes essas distâncias implicam mesmo em fenômenos que a maioria das pessoas custa entender. Um namorado aponta uma estrela para a amada e diz-lhe: dou aquela estrela a você! Ela, emocionada, agradece. Mas o rapaz não sabe que aquela estrela que escolheu dentre tantas outras no firmamento nem ao menos existe mais. Culpa de duas finitudes: a das estrelas que sucumbem com o passar das eras e da medida da velocidade da luz. Mas noite após noite a bela deusa celeste resplandece e marca a história daquele casal. Os dois enamorados suspiram e fazem juras de amor. Os dois percebem que há um toque de mistério nas luzes que vêem por sobre suas cabeças em uma noite límpida de verão. Coisas inatingíveis parecem nos excitar e despertar conteúdos do mais profundo inconsciente. Certa feita Nietzsche fez uma observação que até hoje causa polêmica nas mais cultas feministas de plantão. Disse ele que as mulheres pareciam com veleiros. Ao longe uma bela e poética imagem, cortando o azul oceano. De perto, o casco cheio de avarias, as velas em frangalhos, detalhes desinteressantes que só percebemos com a aproximação do barco. Certamente nosso sábio não guardava muito sucesso nos seus relacionamentos com o sexo oposto e isso se devia em certa medida à construção mental de modelos inspirados por uma cultura greco-romana em grande parte também idealizada. Popularmente muitos homens costumam dizer até que só se conhece uma mulher no momento em que se coabita com ela. Machismos à parte, parece mesmo é que temos uma enorme propensão a idealizar as coisas. Quantas vezes não nos surpreendemos com o desmanchar de castelos de areia bem diante de nossos olhos? São os castelos da idealização. Lembro-me como me causou desconforto a descoberta, na adolescência, de que o amigo de escola que mais me inspirava a estudar, por sua organização, intelecto, aplicação, havia se tornado um ladrão perigoso, tendo, ao cabo de uns poucos anos, este escriba mesmo presenciado o colega em ação, assaltando uma pobre e indefesa senhora no comércio da Capital. Até hoje penso nessa absurda coincidência: logo eu que o havia idealizado tanto assistir aquela cena deprimente! Por muito tempo pensava que parte da má fama daquele antigo colega de infância devia-se a calúnias. Mas então, como disse, eu mesmo pude ver que em algum lugar meu colega havia se perdido. Foi o maior dos castelos que vi ruir diante de meus pés nas areias da vida. Pessoas sensíveis, amantes das artes, seres que choram facilmente. Eis aqueles mais propensos ao mal da idealização! Felizmente, se é que isso serve de consolo, sei de grandes homens que também andavam sonhando, criando castelos bem maiores dos que os meus! Que castelos criados por nós, homens simples, poderiam superar as verdadeiras pirâmides de Platão? Jamais alguém idealizou na história da humanidade como o maior dos discípulos de Sócrates! Pelo menos tenho uma vantagem sobre este grande homem, pois que ao criar todo um mundo ideal, o das idéias, o gênio da antiguidade grega idealizava, por extenso, mesmo o esterco!
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