CAPÍTULO I – O DESPERTAR
Morreu Mestre Chicote, aquele mesmo cheio de ideais nobres na alma. Ora, certa manhã, após despertar de uma noite bem dormida, Mestre Chicote resolveu que iria vagar pelas cidades mais pitorescas deste imenso país que no futuro será o país do futuro chamado Brasil. Sua intenção era tirar da indolência o maior número de pessoas que pudesse. Despertá-las para que passassem a usar mais seus cérebros atrofiados. Isto eu soube das muitas conversas que tive com ele. Sempre fora bastante crítico em relação à atitude adotada pela massa, pelo populacho rasteiro. Se houve qualquer sonho que o inspirasse naquela noite em particular, ele nunca revelou a ninguém, nem mesmo a mim, seu único confidente. Talvez a explicação esteja no elevado número de leituras de nosso Mestre, que, à semelhança do Quixote de Cervantes, perdeu o juízo ao devorar muitas e muitas páginas de boa literatura. É verdade que Mestre Chicote não se atinha apenas a um único gênero, como Quixote fazia com os romances de cavalaria. O Mestre era bem mais eclético e qualquer coisa o interessava. Bom, não é bem assim: ele detestava literatura popular, destas que geralmente se encontram nas bancas de revistas, do tipo romance insosso e assemelhados. Um dia o velho bibliófilo sumiu das vizinhanças e passou tantos anos fora que todos supomos que ele havia morrido em uma localidade afastada qualquer. Alimentamos por tanto tempo esta suposição que ficamos como que extasiados quando numa tarde tranqüila e quente de verão o velho apareceu para abraçar seus amigos. Estava mais magro do que de costume e tinha mudado de roupas! Suas aventuras, sonhos, peregrinações, foram, para a sorte dos seus amigos, cuidadosamente anotadas num velho caderno que o velho tinha sempre por perto. Sim, felizmente o Mestre deixou um diário com suas anotações feitas em várias localidades que visitou e pontos importante para entendermos suas idéias. O Diário caiu-me às mãos como que por acaso há cerca de dois meses e desde então tenho me entretido lendo-o. Volta e meia visito a casa do velho, uma choupana coberta de palha, abrigo perfeito para um sábio desprendido do Mundo de consumo em que vivemos. Por toda a humilde casa há uma quantidade absurda de prateleiras empilhadas como degraus, a biblioteca particular do Mestre contendo muitos livros gastos, jornais velhos e poeira repleta de miseráveis fungos que sempre atacam minhas narinas. Na minha última visita, quando já me preparava para deixar aquele lugar empoeirado e quente, vi por sobre uma cômoda gasta, um caderno borrado pela umidade misturada à poeira dos dias passados ali. Inicialmente pensei tratar-se de uma caderneta de anotações da mercearia, pois como todos os grandes sábios, o Mestre era paupérrimo.Não era. Fiquei encantado quando notei tratar-se de um verdadeiro diário! Comecei na mesma ocasião a lê-lo e, como disse antes, leio sempre. A cada página sou tomado de uma nova passagem surpreendente e , por vezes, cômica. A comicidade das passagens ficam mais por conta de nossos absurdos, de algumas das histórias que fazem de nosso país motivo de chacota dos povos que vivem no mundo civilizado. No decorrer destas linhas, transcreverei algumas das anotações mais interessantes deixadas pelo Velho. Para o leitor atento, ficará sempre a impressão que temos um problema gravíssimo a ser atacado pelas autoridades brasileiras: o problema da educação! Como já dizia Monteiro Lobato, um pais se faz com homens e livros. Temos muitos homens, mas possuímos bem menos livrarias que a Argentina! O Ensino ministrado na rede pública e em especial em algumas localidades mais atrasadas do interior do país, é uma vergonha!
Disse antes que o velho era muito pobre, mas ressalte-se que, por baixo de suas vestes rotas, o bom velho tinha a pele sempre muito bem cuidada. Gostava de tomar banho numa freqüência acima da média para um sábio de seu porte. Não era como Sócrates que não cuidava muito bem de sua higiene pessoal. Na verdade era muito comum o velho nos receber molhado, envolto em uma velha toalha que de tão gasta mal tinha tecido. Felizmente sendo o Mestre excessivamente magro, não tinha muito o que enxugar e assim a toalha ia dando para o gasto.
A primeira cidade que o mestre visitou chamava-se Burroquara. Dela, trataremos em outro capítulo.
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AS PEREGRINAÇÕES DE MESTRE CHICOTE
CAPÍTULO II - MESTRE CHICOTE VISITA BURROQUARA
Burroquara foi a primeira “cidade” que pus os pés em minha nobre missão. Como todos que entendem um pouquinho de Tupy sabem, quara é o vocábulo indígena que corresponde em português a buraco, toca, esconderijo, morada. Bom, desnecessário dizer o que significa burro. Soube que o nome deste animal fora dado por um grupo de moradores do local após observarem que naquela cidade progresso era uma palavra que não constatava no dicionário. Afirmavam que o atraso só poderia ser causado por uma espécie de maldição: havia uma cabeça de burro enterrada no local desde muito tempo, muito antes até da fundação da cidade. Como os moradores gostavam de dizer aos quatro ventos, uma cabeça de burro é capaz de amaldiçoar toda a terra localizada em volta da sepultura do animal. Eu, de minha parte, logo observei que não existia apenas uma única cabeça de burro por ali, mas cerca de dez mil delas, e todas ainda pertencentes a animais bem vivos! Ora, dez mil eram os habitantes do lugar e a se julgar pelo comportamento do populacho, a ignorância era de fato a única responsável pelo atraso local. Andei por aquele “paraíso” por longos vinte dias e pude observar que era uma cidadezinha típica do Norte do Brasil, feia de matar, suja, de povo indolente, elite grossa, arrogante e mal-educada, tendo o urubu como a ave símbolo, uma vez que esse animal era constantemente alimentando por porcos feirantes que jogavam restos de carnes, ossos, entranhas de peixes ao redor do mercado municipal, atraindo essas aves constantemente e provocando uma enorme concentração desses bichos que mais se parecem com párocos de interior na sua indumentária. As negras aves passavam as manhãs brigando pelos quitutes deliciosos e brigando apenas menos do que as mulheres típicas habitantes do lugar pelos parcos homens que se dispunham a trabalhar, pois a filosofia do lugar, como me foi dita por um dos moradores mais antigos da Cidade se resumia a esta bela preciosidade: “seu moço, em nossa Cidade nós temos um dito que diz que se você consegue pagar sua conta de água, sua conta de luz e botar um pouco de comida na mesa, está tudo muito bem”. Os poucos empregos públicos da Cidade giravam em torno da Prefeitura local e assim é que todos os homens que tinham um mínimo de senso de responsabilidade esperavam que o Prefeito, sujeitos estúpido e autoritário, empregasse os cerca de dez mil habitantes que moravam no centro do Município! Evidentemente que tal era impossível mas o povaréu, com sua bizarra aritmética, não pensava assim e constantemente, nos pontos de maior ajuntamento de gente, se escutavam as pragas desferidas contra o principal mandatário da Cidade. Esse por sua vez, como bom politiqueiro brasileiro, sabendo que a plebe vende a alma ao diabo por muito pouco, tinha na distribuição de cestas básicas a sua principal obra assistencial, para não dizer assistencialista, pois que esta palavra não existia no vocabulário da gente simplória e com vocação para a mendicância, o grosso do eleitorado daquela Cidade. O Prefeito, sabedor do pouco valor daquela gentinha, vivia humilhando os que lhe procuravam para pedir algum favor paternalista, só mostrando alguma consideração quando tinha absoluta certeza que o pedinte era seu eleitor fiel. Como não poderia deixar de ser, aqui também se tinha na primeira dama a secretária de assistência social, com o que a família do prefeito tinha seus recursos aumentados sobremaneira. Eis o negócio rentável em que se transformou a arte da política em nosso “País”. Que retrocesso, quando comparamos com a origem da política no mundo grego!
Mas retornemos ao populacho que sempre me diverte bastante! Pouco depois de ter chegado em Burroquara, me dirigi a um pequeno comércio local e pedi um copo de água. A vendedora olhou-me dos pés à cabeça e me disse: “ não tem água não, vagabundo!”. Fiquei ainda por ali, sob os olhares atentos da proprietária e vi duas senhoras conversando. Uma delas dizia: não, eu não vou ajudar aquela fulana. O que é que eu ganho com isso, me diz? Tudo bem que ela é minha amiga, mas...” Basta! Gritei. E você ainda diz ser amiga da tal senhora? Acaso não conheces a bela verdade expressa na máxima: “ A verdadeira medida de um homem é como ele trata alguém que não lhe tenha utilidade alguma”? As duas correram aos gritos e a dona da mercearia me pôs dali aos safanões! E quanto à visão de mundo do povo? O povaréu deste lugar está certamente no mesmo nível da plebe medieval. Muitos na cidade acreditam em simpatias absurdas e não sabem que lá fora, no mundo civilizado, de há muito que existe uma coisa chamada estado de direito. Ora, por aqui ainda impera a lei do mais truculento. Todos os dias eu vejo as pessoas violando os direitos do próximo como se fosse a coisa mais banal e quando você tenta explicar algum rudimento de cidadania, ética, política e coisas assemelhadas, invariavelmente os seres bizarros que se dizem humanos, saem-se com uma atitude grosseira ou de desdém puro e simples, pois pensam que não se deve dar ouvidos a um sujeito mal vestido e sem dinheiro, como eu. Neste aspecto, devo fazer justiça, são iguais a maioria dos indivíduos do mundo moderno: Eis toda a modernidade destes habitantes! Os cidadãos gregos de 2.500 anos atrás certamente eram de melhor qualidade. Todas as gerações deste lugar medonho estão contaminadas. Temos duendes e demônios por aqui saltitando por sobre as fogueiras, temos entidades maléficas pululando às costas dos intrigantes habitantes do lugar, sempre desconhecedores do mínimo de moral. Espíritos negativos dançam felizes ao verem a amizade inexistir nesta terra triste e escura, enquanto sussurram nos ouvidos do grosso da população, normas morais oportunistas de um estranho utilitarismo, da conhecida lei da oportunidade, do aproveitar a ocasião para tirar algum proveito do próximo. Epicuro ficaria muito feliz ao passear por estas bandas por uns poucos dias e ver como um grupo humano pode neste início de século XXI ser tão superior aos gregos da antiguidade clássica ao ponto de não conhecerem o maior de todos os bens que é a amizade, na harmonia que pode existir entre pessoas que tomam as outras como fim e não apenas como meio. Falta educação e falta amor por aqui. Sociedade deveras bizarra essa que une tecnologia de ponta a seres humanos tão medíocres. Por sobre as casas vejo uma profusão de antenas voltadas para modernos satélites em órbita do globo, vejo televisores, vejo celulares, vejo alguns automóveis bem razoáveis, mas não consigo achar um pouquinho apenas que seja de cidadania, de moral, de amizade, de prazer nas atividades culturais, de bom gosto, de sensibilidade. Em todas as direções em que olho apenas um terrível vazio, seres com um enorme vácuo em suas cabeças, em seus corações, em suas almas. Monstros criados pela mídia, pelo descaso dos políticos, pela indolência, geradores de uma abominável inversão dos valores mais básicos que fazem um homem superior aos animais. Flutuo em agonia por sobre um oceano de sistema límbico e penso com absoluta convicção que o lagarto que balança a cabeça excitadamente enquanto sobe pelo caule de uma árvore em minhas proximidades, vale muito mais que algumas pessoas desprezíveis que vegetam por aqui.
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