Sunday, April 11, 2010
Homo homini lupus
Mês de março último. Pego um táxi e o taxista me oferece um exemplar de um determinado jornal. Passo os olhos por sobre as páginas e encontro quatro fotos que me chamam a atenção: Uma cadela tentando atravessar a BR-316 com seu filhote. Na primeira foto a cadela começa a travessia tendo o pequerrucho no encalço. Na segunda um carro atropela o cãozinho. Na terceira a cadela volta para a margem da estrada com o filhote na boca. Na quarta e última foto a cadela após deixar o pequeno sobre a grama monta guarda como que tentando protegê-lo quando não há mais nada a fazer. Vou em frente na leitura do jornal e encontro como reportagem principal o casal que jogou a menina Izabela do sexto andar da janela do agora sombrio Edifício London (para mim outro Edifício, o Dakota em Nova Iorque, também ficou “carregado” desta aura de peso, de sombra e dor, após o assassinato de John Lennon). Então olho uma pequena mensagem em um canto qualquer da última página do caderno que leio. Ela diz: o homem é o centro de tudo, posto que é a obra máxima da criação. Quase que no mesmo instante o taxista, me vendo concentrado na leitura do jornal educadamente me oferece um segundo caderno do jornal. Eu declino e fico com aquela sensação esquisita de que Luc Ferrin tem plena razão quando nos chama a atenção para uma característica que pertence unicamente ao animal humano, ao homo sapiens: a capacidade do que ele chama de diabólico. O homem é o único animal que tortura, que faz mal consciente de que o faz, de que provoca dor. Suspiro e temendo um assalto, pois enquanto me deixo envolver por estas reflexões o táxi toma um atalho por vielas não muito bem cotadas nas estatísticas policiais da grande Belém, penso novamente na doce cadela, que procurou fazer com seu filhote o que Alexandre Nardoni não conseguiu com sua filha, morta na idade mais bonita, no início de uma trajetória única neste universo imenso e espantoso. Uma lágrima corre no canto dos olhos. Um ardor nos olhos encerra a leitura definitivamente.
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