Friday, April 09, 2010
MEMORIZO, LOGO ESTUDO DIREITO!
Deve-se ter memória para ser um operador do direito. Só memória. Inteligência é dispensável na maior parte das vezes. Quanto àquilo que os sábios gregos prezavam e que chamamos caráter, bom, isso é coisa que só atrapalha se o neófito quiser progredir. Descartes, o filósofo, tinha, ambas as qualidades para não prosperar nessa disciplina. Era demasiado inteligente e nunca se soube de qualquer desvio que desabonasse sua conduta moral. O discurso vazio e tendencioso de professores e estudantes franceses levou nosso bom sábio para bem longe, para uma direção oposta e assim foi que Descartes detestou o curso de direito e se dedicou à filosofia e, diga-se, a filosofia da certeza do cogito, tão pouco à vontade ficou com o palavreado vazio da retórica de botequim muito comum entre os jurisconsultos e causídicos de plantão. A coisa toda foi tão traumatizante para o feioso de olhos tristes, como, aliás, é todo francês que se preze. Certamente foram angustiantes os momentos que passou entre os que de fato tinham vocação para o direito, ou seja, para o engodo, a astúcia, e outros qualificativos que são os requisitos necessários para se progredir no lodaçal destes senhores com ar de seriedade mais em geral têm forte propensão para a velhacaria. A fuga de Descartes foi um mal para o direito e uma dádiva para a filosofia, pois tivemos com isso o nascimento daquela que é chamada de Filosofia Moderna. Nunca o direito foi tão importante para a história da humanidade! Ora, se tivéssemos nesse universo formado por leis dúbias, nesse espaço com visibilidade de um dia de chuva forte, nessa arena de imprecisão, enfim, nessa coisa que é feita exatamente para fazer progredir economicamente os mais astutos, os memoriosos como o funes de Borges, se tivéssemos, repito, um mínimo de bom senso, de lógica, de transparência, de exatidão no Direito, Descartes talvez nunca tivesse se dedicado à Filosofia.
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