Sunday, February 27, 2011

MÉTODO PRÁTICO DE RECONHECIMENTO DE CAIPIRAS

Um caipira típico é aquele sujeito que acha que o mundo acaba bem ali, depois dos limites de sua localidade. Tendo um comportamento per vezes tribal até, ele não suportará que um cidadão de outro lugar opine sobre questões locais, o que levou Schopenhauer, após uma permanência em um local decadente, a vociferar certa feita sobre a abominável prática do bairrismo, essa coisa tão comum em populações incultas. Essa criatura, o caipira, de nome científico HOMO LIMBICUS, passará um terço da existência tacanha de olho na vida do próximo, fazendo-nos recordar da leitura de um célebre ensaio de Arthur Schopenhauer quando em certo trecho o maravilhoso autor de O Mundo Como Vontade e Representação, nos faz notar que os homens são de duas espécies: aqueles pouco numerosos que se interessam pelo universal, pelas grandes questões, e aqueles outros muito mais abundantes, que se detêm no particular, nas ninharias da vida. Assim, um caipira típico pertencerá a esse segundo grupo de homens. O segundo terço da vida de um caipira padrão é gasto com jogos de baralho, dominós e assemelhados, assim ele consegue unir a diversão tão cara a homens infantilizados com o observar a vida alheia, vista no primeiro terço, pois em geral procura jogar em lugares em que tenha ampla visão do que se passa em boa extensão de seu lugarejo. Aliás, também esse fato – a propensão ao jogos -, chamou a atenção de nosso velho Schopenhauer que certamente ficou deveras chocado com a perda de um tempo tão precioso, um tempo que poderia ser aproveitado no chamado ócio criativo, na instrução das mentes que tornariam seu lugarejo um lugar melhor para se viver, pois composto de cidadão mais exigentes e transformadores da comunidade, enfim, melhores eleitores. O terço final da vida de todo caipira é aquele onde encontram-se os sonhos de consumo, pois em geral um caipira mantém ares de importância e detesta admitir que é pobre, potencializado que é assim pela mídia, que o torna um consumidor voraz, sendo que mesmo que seus rendimentos não sejam lá grandes coisas, não deixa de manter o nariz em pé, quase como se fora membro de alguma espécie de aristocracia de longa data. Um caipira adora se atolar em dívidas para financiar uma moto ou carro e uma vez que consiga obter esses bens tão sonhados por ele, jamais voltará a andar com as próprias pernas, pois como ouvi da boca de um membro dessa espécie límbica, “andar é coisa de pobre”. Que nascemos todos, ricos e pobres, com dois membros inferiores exatamente para locomoção, pelo menos em distâncias não muito grandes, isso ele nunca raciocinará, afinal raciocinar é demasiado trabalhoso para dois terços do gênero humano. Que os passeios dos peripatéticos e as caminhadas de Rousseau e Kant, foram de longe mais produtivas para o gênero humano do que todas as idas e vindas do caipira por sobre seus veículos, dificilmente se conseguirá incutir em cabeça tão oca. Está também além das possibilidades de sua cabecinha o entendimento de que seu conceito de pobreza vem de valores formulados pela escória, pelo próprio populacho, em suma, pelo HOMO LIMBICUS, de modo que um homem de espírito nunca deve perder seu precioso tempo tentando explicar ideias que foram e são cultivadas por aqueles de maior intelecto. Por exemplo, se um homem culto mais um tanto quanto sem vivência prática ousar dizer para um caipira que a riqueza pode ser definida de diversas maneiras, que o que é importante para uns já não o é para outro, que alguns homens encontram a paz exatamente na frugalidade de uma vida sem grandes ambições, como foi o caso de Sócrates e tantos outros grandes espíritos, que o dinheiro tem seu valor numa economia de mercado, evidentemente, mas que a vida é mais importante, que o sorriso de uma criança jamais poderá ser pago com quaisquer somatórios em espécie, que um minuto de paz na pobreza vale mais do que um minuto de perturbação gerados pela cobiça, de que os piores homens por sobre a Terra – e aí inclusos os traficantes de droga -, são os mais ávidos por dinheiro, esse homem culto correrá o risco de ser chamado de lunático e contará com o desprezo de quase todos os que o cercam. Evidentemente que um homem de espírito não deverá lamentar tais coisas pois a opinião do vulgo, o julgamento de quem nasceu com um vácuo no interior da caixa craniana, baterá no rosto do homem de espírito mais como uma brisa leve e infecta proveniente de um pântano próximo, de modo que muito embora não lhe faça mal à saúde, incomoda na mesma medida em que odores infectos nos repugnam, porém, sendo logo levados pela brisa gostosa e benfazeja do espírito bem aquinhoado pela natureza.


LUIZ OTÁVIO DOS SANTOS NUNES, 25/02/2011

1 comments:

Walquir said...

Como vai Luiz? Fiquei feliz com o nascimento da tua filha, parabéns, então, como o amigo Peixe, também passastes de consumidor para fornecedor hein? Aceite meus sentimentos pelo falecimento de teu irmão, o homenageastes com um belo texto. Continuo no MP, formei-me em Direito e faço especialização. O Marcelino, o Zanon e o Márcio Carneiro estão no Orkut. Entre em contato walquir@gmail.com