Thursday, February 10, 2011

TARSO

PAULO DE TARSO DOS SANTOS NUNES. Para a maioria das pessoas apenas mais um nome de uma pessoa desconhecida, dado por uma mãe cristã em homenagem àquele que Renan Chamava de o 13º apóstolo. Mas para quem o conheceu como eu, para quem teve o prazer de desfrutar de sua companhia, de ouvir suas colocações quase sempre polêmicas, inconformadas; suas inquietações com as injustiças sociais, sua incapacidade de tolerar abusos, de levar desaforo para casa, como se diz popularmente, O TARSO, como gostava de ser chamado, era “O Cara”. Carismático, amante de uma boa companhia, inquieto, com um imenso sentimento de liberdade que eu só pensava existir nas aves; aquele feeling de que o mundo é pequeno demais, de que há muito para conquistar, de que ficar no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar, nada tinha de agradável, de desejável. Um cara que se doava totalmente aos seus amigos e com isso cativava todos que o cercavam. Era impressionante a quantidade de pessoas que batiam a nossa porta perguntando pelo TARSO! Desde garoto observei que o TARSO monopolizava as conversas com os amigos, a ponto de meu velho pai ao ouvir o TARSO conversar na esquina, próximo a nossa casa, comumente fazer a observação: “ A gente só escuta a voz do Paulinho!”. Verdade se diga: muitas vezes o TARSO passou dos limites em fins da infância e início da adolescência, sendo frequentes as reclamações dos vizinhos sobre as travessuras de nosso Paulinho (era assim que nós sempre o chamávamos). Por exemplo, um dia o TARSO foi olhar com alguns colegas da rua um terreiro de candomblé que havia sido recentemente implantado ali em nosso Bairro e minutos depois da sessão inaugural ter iniciado, a própria mãe de santo procurou meu pai, o velho João Henrique, para relatar que o TARSO havia jogado uma bomba no meio do tal terreiro exatamente na hora em que uma importante entidade havia “baixado”! É, o TARSO nunca ligou mesmo para metafisica, uma vez que o seu negócio era o terra-a-terra, ou melhor, o terra ar de todos os espíritos de alma livre, de todos os buscadores. Sim, o TARSO sempre pareceu buscar algo que nunca conseguíramos entender muito bem. Era quase como se ele quisesse abarcar o mundo inteiro em um abraço, como se quisesse buscar o máximo possível de calor humano, carinho de um maior número de pessoas. O TARSO era também um daqueles sonhadores agnósticos de que nos fala John Lennon na antológica Imagine. Mas não era um daqueles tipos que sonham acordados e ficam a maior parte do tempo deitados na inércia total, aqueles que dizem lutar por uma bandeira e na hora “h”, na hora da luta, dão para trás. Não! O TARSO era a maior expressão do existencialismo sartriano que conheci em minha vida, posto que se fez em ato, na pura ação, na luta constante. Com ele não havia muito espaço para teorias, não. Se a fórmula existencialista de Sartre preconiza que a existência precede a essência, então não exagero ao fazer notar o quanto meu amado irmão se adequava aquele preceito tão caro ao Filósofo francês. Desde setembro de 2010 que tenho dormido e acordado como TARSO em meus pensamentos. Como também sou agnóstico, não posso lamentar a morte prematura de meu irmão recorrendo a expressões do tipo, porque isso foi acontecer logo com uma pessoa tão boa quanto o meu irmão? Tenho que ser duramente consciente, de que muito provavelmente o universo não tenha desígnios celestes superiores. As coisas simplesmente acontecem e as nossas escolhas desempenham um papel fundamental nas consequências futuras. O TARSO não fugiu à regra das responsabilidades que todos devemos arcar por nossos atos, por nossas decisões. O TARSO resolveu que a vida o chamava, o viver cada momento o atraia definitivamente com uma força maior do que qualquer outra no universo. Ele simplesmente não teria muita paciência para perder com tratamentos longos e na maioria das vezes deletérios por seus efeitos colaterais. Ele escolheu o presente. O TARSO não combinava muito com expectativas para o futuro e com apegos do passado. Tal qual Schopenhauer ao pregar a importância do presente que é o único que realmente importa, porque existente aqui e agora, o TARSO escolheu o minúsculo ponto espaço-temporal que avança inexoravelmente e ao qual nomeamos de presente. Se me perguntarem se o TARSO fez a escolha certa, eu digo com absoluta certeza que o TARSO encontrou um caminho com o coração tão a seu gosto, à semelhança de Nietzsche, que, aliás, ele tanto admirava, e que uma vez disse que na dúvida entre a razão e o sentimento, deveríamos optar pelo segundo. Gosto de observar o céu à noite, no frio da madrugada e tenho o hábito de nomear as estrelas de meu céu particular com nomes de pessoas por quem nutro algum afeto. Foi assim que chamei Betelgeuse de Carl Sagan, o grande astrônomo falecido há alguns anos. Foi assim que chamei Sírius, a mais brilhante estrela no firmamento, de PAULO DE TARSO DOS SANTOS NUNES, a quem tive o maravilhoso prazer de conhecer, amar, admirar e, sobretudo, chamar de irmão.

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