Friday, October 21, 2011

OS CARROCEIROS DE SCHOPENHAUER E OS FOGUETEIROS DO SENHOR LUIZ

Sempre detestei o comunismo porque ele é absolutamente utópico em suas esperanças de que pessoas tão diferentes vivam em um mundo de suposta igualdade. Neste exato momento há aborígines australianos e índios brasileiros que ainda fazem fogo usando pedras e gravetos. Há também físicos nucleares tentando penetrar o âmago da matéria e cosmólogos sinceramente interessados em saber como nasceu e evoluiu o universo. Tentar nivelar uma sociedade tão dispare, onde os talentos são distribuídos pela natureza não com abundância, mas sim com parcimônia, é coisa de quem não pensa muito bem. As diferenças sempre vão haver no mundo natural; aliás, as diferenças são as grandes responsáveis pela máquina do mundo, das variações genéticas que possibilitam a evolução da vida sobre o planeta até os desníveis de potencial que fazem, por exemplo, existir o fluxo da energia em suas diversas manifestações no cosmos imenso de estrelas e galáxias. Quero aqui analisar alguns aspectos interessantes destas diferenças no que diz respeito aos homens em lugarejos atrasados no interior do Pará, região que, por nascimento, tenho observado um pouco melhor. Tomemos um fato concreto. Há interiores do Pará onde ainda imperam códigos de comunicação que nos fazem lembrar daqueles velhos sinais de fumaça que víamos quando adolescentes nos antigos filmes de western americanos. Se pegássemos alguns rojões e tentássemos com isso anunciar para a comunidade algumas “novidades” o que viria a ser isso senão um certo código de comunicação primitivo? Pois diversas vezes observei que muitas cidadezinhas dispunham desse expediente para divulgar os mais diversos acontecimentos, a ponto de muitas vezes eu pensar em comunicar aos senhores prefeitos locais uma brilhante idéia que tive certo dia ao ser acordado lá pelas seis da manhã por um diligente fogueteiro que insistia em soltar rojões bem próximo de minha casa. A idéia era a seguinte: porque não se criar nesses lugarejos um cargo público provido em concurso exatamente para fogueteiros? O fato é que esses senhores que volta e meia nos acordam com seus rojões são tão úteis nessas comunidades que não vejo porque motivo não se institucionalizar o cargo para regularizá-los e pagando inclusive adicional de periculosidade, uma vez que volta e meia o rojão parece se rebelar contra aquele que o solta, especialmente levando-se em conta que muitos desses sujeitos vivem embriagados! Penso aqui no velho Schopenhauer vociferando contra os famigerados carroceiros que insistiam em estalar seus chicotes barulhentos em frente à residência do filósofo germânico. Schopenhauer até sugeria que os chicotes fossem usados nas costas não dos cavalos, mas sim dos carroceiros impertinentes, tal o seu desprezo por essas criaturas! É freqüente os fogueteiros me perturbarem com seus rojões nas horas mais inconvenientes, quase com se achassem que todos os indivíduos que moram no interior dessas cidadezinhas paraenses não tivessem acesso a uma gama de tecnologias modernas que de há muito deixou os primitivos códigos de comunicação para aqueles que ainda fazem fogo usando pedras e gravetos.

0 comments: